Uma fato interessante de ser
notado na Nouvelle Vague é que ele começou muito antes de os filmes deste movimento
serem produzidos. Isso ocorre através das opiniões e críticas expostas por jovens
aspirantes a cineastas franceses na revista Cahiers du Cinéma. Mas antes de nos
aprofundarmos nesta história, vamos conhecer melhor o contexto em que o estilo
nasceu.
Imperava na França da época um
cinema monótono, em sua maioria adaptações de clássicos da literatura apoiados
em grandes astros, além do chamado cinema do papai, em que imperavam filmes de
estúdio, com maquiagem e iluminação impecável, e isto já reinava desde o fim da
segunda guerra mundial. Na ânsia de inovar o cinema, aparece o crítico francês
André Bazin, dono de uma cinemateca em Paris onde os jovens puderam ter acesso
a filmes de diretores como Hitchcock, Orson Welles e Jean Renoir, Howard Hawks,
John Ford, etc.
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Cena de Os Incompreendidos (Truffaut,1959). |
Além da cinemateca, André Bazin
ainda era um dos donos da já citada revista Cahiers du Cinéma, onde diversos
futuros diretores como François Truffaut, Jean-Luc Godard, Jacques Rivette e Claude
Chabrol expunham as suas opiniões sobre o cinema hollywoodiano, o cinema francês, além dos mais diversos diretores, e claro, reverenciavam seus ídolos,
tais como Jean Renoir e Roberto Rossellini (para se ter uma ideia, Truffaut admitiu
ter assistido à A Regra do Jogo, de Renoir mais de 20 vezes, e Godard chegou a
inventar uma falsa entrevista com Rossellini). Além de absorverem as ideias de
outros movimentos cinematográficos recentes como o Neo-Realismo italiano
(algumas características deste seriam adaptadas à Nouvelle Vague).
Se “aquecendo” durante a década de 1950 através da produção de curtas metragens, os
cineastas da Vague iriam lentamente caminhando para a produção dos longas
metragens que comporiam o movimento. Um dado
curioso para entendermos como eram unidos os entusiastas da vanguarda é
observar que Godard chegou a ser montador de um curta metragem de Truffaut.
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Cena de O Acossado (Godard, 1960). |
Pois bem, aquele que é
considerado o marco inicial do movimento é Os Incompreendidos, 1959, de Truffaut
(que o dedicou a Bazin), apresentado no festival de Cannes, seguido de Alain
Resnais com Hiroshima Meu Amor, de 1959, Chabrol com Os Primos, de 1959, e
finalmente Godard, que em 1960, lançaria O Acossado. O sucesso de público e
critica destes primeiros filmes fez com que nos anos seguintes, diversos jovens
cineastas ganhassem oportunidades e pôs no patamar da fama os diretores
envolvidos com seu surgimento.
Apesar dos diversos estilos e características
únicas de alguns filmes do movimento, a maioria apresenta algumas marcas em
comum, tal como: cortes bruscos sem fade (não temem a descontinuidade, ao contrário de
Hollywood, o que conferiu mais agilidade aos filmes), filmagem em locações, citações à literatura e a filmes, juventude,
roteiros episódicos, uso de equipamento portátil, equipes pequenas,
criatividade frente aos limites financeiros (Godard chegou a fazer um travelling
com um carrinho de supermercado) e repúdio a estúdios.
No decorrer da década de 1960 a
onda (vague) foi perdendo força, as bilheterias dos filmes foram diminuindo. É considerado
o marco final do movimento o rompimento da amizade entre seus dois maiores
realizadores, Truffaut e Godard, no final da década, porém o movimento já havia
deixado seu legado, influenciando o cinema de todo o mundo, inclusive a Hollywood
da década de 1970, e o Cinema Novo Brasileiro aqui (falarei sobre ambos mais
tarde...).